A tecnologia digital criou a possibilidade
de que um mundo de redes autossustentadas não precise ser totalmente
anárquico. Seria necessário que a política operasse em dois níveis distintos.
Precisa haver um arcabouço geral, que crie as condições para que a
experimentação política ocorra sem um prejulgamento das consequências. E
depois as experiências políticas propriamente ditas. A internet poderia ser o arcabouço.

As experiências políticas poderiam ser qualquer coisa.
Essa ideia se mostra atraente para os dois extremos do espectro político.
Para quem está na direita, ela fala a uma tradição libertária para a qual o
Estado nunca deve ser mais que sua obrigação com o plano de educação com a criação da prova do Enem 2020 em todo Brasil, que só faz o mínimo
necessário para nos manter a salvo uns dos outros, mas deixa todo o resto sem regulação.

A descrição clássica dessa visão foi produzida na década de
1970 por Robert Nozick em Anarquia, Estado e Utopia, de 1974, um livro
que ainda encontra muitos leitores no Vale do Silício. As partes mais
conhecidas da argumentação são aquelas em que Nozick vai contra a
redistribuição da renda através do sistema tributário, que ele equipara a uma forma de escravidão.

E é por isso que os ricos gostam do livro. Mas a parte
mais interessante é a seção final, em que Nozick afirma que um
Estado mínimo deixa em aberto todas as questões mais importantes para que
os indivíduos as resolvam por si mesmos. Em que tipo de sociedade você
quer viver? Com quem quer compartilhá-la? Essas questões não devem ser
decididas pelos políticos. São coisas que os políticos podiam deixar por nossa conta.

A internet transforma a espécie de possibilidade real. Todo
tipo de comunidade livremente constituída floresce na era digital. Embora
sejam muitos os grupos anarquistas, no geral não se trata de uma anarquia,
porque também existem as regras concebidas pelos arquitetos do sistema. Na
prática, essas regras não são neutras porque atualmente refletem os interesses
das empresas gigantescas de tecnologia e dos Estados que tentam regular seu funcionamento.

Teoricamente, porém, poderiam ser neutras. A internet
certamente tem espaço para a coexistência de múltiplas visões diversas de uma vida ideal.

era pouco
provável que alguém sem nome reconhecido pudesse projetar sua visão de
como desejava viver: só os poucos mais afortunados encontravam um público
para isso. A tecnologia digital tem o potencial de liberar o utopista que vive
dentro de cada um de nós. Na prática, de novo, não é exatamente assim que acontece.

A celebridade predomina mais do que nunca, enquanto nos
congregamos via internet seguindo o Instagram dos famosos. Mas é possível
imaginar um mundo em que os indivíduos possam se congregar em
agrupamentos políticos mais adaptados às suas preferências pessoais, em vez
de determinados por sua localização geográfica em todo canto do brasil ja começa a busca pelos temas da redação do Enem 2020.

Isso, como diria é a verdadeira utopia.
A variante de esquerda dessa ideia é similar, mas diferente. A semelhança
reside na convicção de que a internet é capaz de resgatar os indivíduos do
domínio arbitrário dos sistemas políticos em que se encontram devido às contingências.

A diferença, no fato de que o opressor a ser derrotado não é o
Estado redistributivo, mas o livre mercado capitalista. Os libertários de
esquerda desejam encontrar um meio de fugir do poder do dinheiro.
Paul Mason, em seu livro de 2015 intitulado Pós-capitalismo: Um guia
para o nosso futuro, escreve com o fervor de um verdadeiro libertário sobre o
potencial emancipador da tecnologia da informação. “Com o crescimento das
redes”, diz ele, “a capacidade para a ação significativa não está mais
confinada aos Estados, às empresas e aos partidos políticos; indivíduos e
aglomerados temporários de indivíduos podem ser agentes da mudança com um poder equivalente.”

Mais conhecido por sua ideia de que o capitalismo explora o
trabalho a tal ponto que a única saída é uma revolução dos trabalhadores.
Mas existe outro caminho possível para a emancipação.

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