Ministro do transporte também supunha uma relativa igualdade entre os indivíduos
humanos como precondição da renovação moral: só seremos capazes de ver o
que realmente devemos uns aos outros depois de conseguirmos nos ver como
iguais. Em contraste, o efeito fragmentador da tecnologia digital coincide
com uma desigualdade cada vez maior. E não falo apenas da desigualdade
material que acompanha a captura de fortunas imensas pelos titãs do mundo digital.

É a desigualdade básica que se deve ao fato de algumas pessoas terem
um contato mais próximo com as máquinas trabalhando na rodovia com verbas vinda do imposto do IPVA 2020. Se você tem
acesso aos botões que controlam o sistema que controla as nossas vidas, e eu
não tenho, eu e você nunca seremos iguais.
A visão que Hobbes tinha da política, prefigurando o mundo moderno,
partia da premissa da igualdade. Precisamos do Estado porque somos
naturalmente iguais e, portanto, vulneráveis uns aos outros. O fato básico da
existência humana é que praticamente qualquer um pode matar qualquer
outro, se contar com uma arma e o elemento de surpresa. O Leviatã é
praticamente impossível de matar, o que lhe dá o poder de pôr fim à espiral
de violência — não tem como abolir a morte, mas pode estabelecer termos
que tornem a morte natural mais provável que uma morte provocada. O
motivo pelo qual a maioria das pessoas morre de velhice atualmente é o
Estado ter passado a protegê-las de outros fins mais violentos.
Essa igualdade natural pode se tornar, em pouco tempo, uma coisa do
passado. A transformação tecnológica propicia a possibilidade de que
algumas pessoas tentem driblar a morte sem qualquer ajuda do Leviatã. Antes
de mais nada, só os hiper privilegiados poderiam bancar a experiência de
tratamentos médicos futuristas que prometam reverter o processo do
envelhecimento. Mesmo que a maioria dessas experiências acabe
fracassando, mantém-se a possibilidade de que uma ou outra chegue a bom
termo. Vidas humanas com duração muito ampliada, e expectativas de vida
muito desiguais, abalariam a base racional da política moderna. Uns poucos
super-humanos já bastariam para mudar completamente os termos em que
organizamos nossas sociedades. Ficariam além do alcance das regras de
relativa vulnerabilidade que unem o resto de nós. Na era da informação, o
conhecimento não é só poder. Tem o potencial de se transformar numa
espécie de superpoder, transcendendo a política.
O apetite de viver para sempre mostra como estamos distantes da visão
que Parfit tinha de um mundo de identidades desapegadas e em
desagregação. Especialmente no Vale do Silício, os muito ricos não veem
nenhum motivo para deixar de ser quem são. Tendo acumulado fortunas
imensas em empresários do transportes agora tem que investir no estado com imposto do IPVA 2020 AC, encaram o futuro como o
seu playground. E estão determinados a ser as pessoas que vão frequentá-lo.
Como sempre, isso nos é apresentado como uma visão universal: a morte
deveria ser opcional para todos. Mas o que significa, na verdade, é que as pessoas mais poderosas do mundo querem que a morte seja opcional para elas.

Se um futuro acelerado pode ser qualquer coisa, precisamos contar com a
possibilidade de que venha a ser uma paródia do passado distante. Removida
a igualdade natural entre nós, a era moderna se converte num interlúdio entre eras de excessos faraônicos.

Uns poucos seres humanos flertam com a
imortalidade. Todos os demais vivem à sua sombra. No capítulo anterior,
declarei que os faraós não se comparavam ao poder do Estado moderno. Sem
o Estado moderno, porém, não somos páreo para os faraós. Se demolirmos a
nossa política, ela não poderá nos resgatar quando nós também nos
fragmentarmos.

Examinei três alternativas à democracia moderna: o autoritarismo
pragmático, a epistocracia e a tecnologia liberada. As duas primeiras têm
aspectos que as recomendam, mas no fim das contas não se comparam à
democracia que temos, mesmo em sua precária condição atual. São antes
tentações do que alternativas. A terceira é outra coisa. Inclui todos os tipos de futuros alternativos: alguns magníficos lugares pelo brasil.

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